Zaïda a empurrar o 3008 nas dunas de Ouadane, Mauritânia
Zaïda a empurrar o 3008 nas dunas de Ouadane, Mauritânia

CREPES DE CAMELO GUISADO PARA JANTAR NO DESERTO

In Expedições by Alexandre Correia3 comentários

Quando Zaïda nos disse que tinha feito um guisado de camelo com couscous para o jantar, nem precisou que lhe respondêssemos para que percebesse que não era a nossa ementa preferida. Só os couscous estavam a mais, mas imediatamente se ofereceu para preparar uns crepes, que combinaram perfeitamente com o guisado, riquíssimo em verduras acabadas de colher na horta, muito embora estivéssemos bem dentro do Sahara.

Sempre que fomos à Mauritânia, o mais que fizemos foi andar no deserto, ou este país não ocupe cerca de um nono da superfície total do Sahara. Todavia, numa quinzena de passagens, nem sempre fomos ao interior. Para compensar este desequilíbrio, com a Expedição Todo Terreno Peugeot 3008 Lisboa-Dakar-Bissau decidimos alargar por duas vezes a nossa rota ao interior, ainda que sempre cingindo-nos ao triângulo Atar-Chinguetti-Ouadane, que corresponde à região mais promovida do ponto de vista turístico, com uma oferta equilibrada em termos de estruturas e de pontos de interesse, seja culturais, seja meramente paisagísticos.

A visita a esta região, no nordeste, implica pelo menos acrescentar uns 1600 quilómetros à distância a percorrer. O que levou a que nalgumas das nossas viagens através da Mauritânia, não nos afastássemos da costa. E em todo o sector ao longo do Atlântico, que rapidamente ficámos a conhecer em profundidade, percorremos, sucessivamente, centenas e centenas de quilómetros em areia, muitas das vezes próximos do mar, quando não mesmo a molhar as rodas no oceano. Há apenas uma área costeira que ficou “em branco”. A excepção é uma zona no norte, praticamente inacessível, sobretudo para quem se desloca em viatura: os cordões de dunas a leste da enorme baía de Lévrier, que se estende desde o Cabo Branco e a cidade de Nouadhibou, em direcção ao famoso Banco de Arguin. Rodeados por “chotts” imensos, que constituem a mais perigosa das armadilhas do deserto, estas dunas são, na prática, intransponíveis.

Memórias de lições inesquecíveis

Os “chotts” são planícies de lama seca, geralmente tão lisas que até convidam a fazer uma corrida; mas escondem por baixo lama e água salgada, capaz de engolir, literalmente, um camião. Já lá ficaram alguns e um deles, há muitos anos, não foi o camião Mercedes-Benz AK 4×4 do nosso colaborador Cristóvão Leitão, apenas por um quase milagre: “Pocas”, como é tratado entre os amigos, foi então o primeiro português a participar como piloto de “pesados” no Rali Dakar e a sua experiência resumia-se a duas presenças com o seu UMM Alter Turbo, mas sentado no lugar do navegador, onde acabou por voltar a casa mais cedo do que o previsto.

Mas nunca desanimou e impressionado com os valores exorbitantes que algumas equipas de camiões cobravam para transportar ao longo do “Dakar” alguns caixotes com material sobressalente, decidiu investir e passar-se para o lado do negócio. E nunca fez grande negócio, porque isso não lhe está no sangue. Mas sempre se divertiu imenso e até os episódios mais difíceis e tensos ao invés de terem ficado gravados na sua memória como pesadelos, perduram como experiências inesquecíveis, daquelas que não se encomendam, nem têm preço. Esta, contudo, teve um custo elevado. Ao rolar perdido neste sector do noroeste da Mauritânia, entrou num “chott” e só quando o camião começou a ficar enterrado em lama percebeu que tinha caído na mais temível das “ratoeiras”.

O resgate do camião de Cristóvão Leitão ficou-nos como um exemplo de determinação, mas também quase que de sobrevivência. E embora não tenhamos assistido, tudo o que aconteceu e o modo como foi resolvido ensinou-nos imenso, resultando numa preciosa lição, que em que são os erros dos outros que nos permitem evitar cairmos no mesmo engano. Resumindo, como não “podia” abandonar o camião em pleno deserto, “Pocas” foi procurar ajuda. E conseguiu mobilizar todos os homens de uma aldeia, contratando-os para cavarem o lamaçal até ser possível libertar o camião. Esta operação demorou três dias de trabalho intenso e além de uma pequena fortuna, custou ainda um rebanho de cabras, que foram sendo abatidas à medida que a fome apertava. E se havia fome… Mesmo assim, a solução revelou-se perfeita.

Nesta edição do rali, em 1994, a prova chegava a Dakar e voltava para trás, terminando de novo em Paris, aliás, no parque de diversões EuroDisney. Cristóvão Leitão ainda conseguiu chegar a Dakar, “saltando” as etapas até à capital senegalesa e a jornada de descanso, mas o excesso de penalização era demasiado e por muito que tivesse tentado, não conseguiu convencer a organização a autorizar que regressasse a Paris integrado na caravana, mesmo que extra-competição. E mesmo que o autorizassem, teria de o fazer sozinho, porque esgotado com a operação para desatascar o camião da lama, naquela etapa de Nouadhibou a Nouakchott, o navegador de “Pocas”, um francês radicado no Porto, Marc Goyri, assim que chegou a Dakar e encontrou uma cama, adormeceu profundamente e dormiu três dias ininterruptamente. E depois, apanhou um avião para Lisboa e abandonou o piloto, que regressou sozinho a bordo do seu camião, mas integrado num comboio de mais alguns camiões, que também tinham desistido da prova.

A experiência solitária do regresso de Cristóvão Leitão serviu-nos também de exemplo, para nos motivar a fazer o mesmo: repetir, na medida do possível, o percurso dessa edição do Rali Paris-Dakar-Paris. E o certo é que o fizemos já inúmeras vezes. Esta Expedição Todo Terreno Peugeot 3008 Lisboa-Dakar-Bissau, coincide praticamente sempre com o itinerário dessa prova, que também foi ao interior da Mauritânia na sua fase ascendente, quando a caravana já vinha de Dakar em direcção à Europa.

Dunas ao pequeno-almoço

Em 1994 o rali não foi a Ouadane. Passou bem perto alguns anos mais tarde. Os ergs, cadeias de dunas a perder de vista, fazem com que esta zona do deserto seja um grande desafio para quem se aventure. E isso é tão válido para quem vai numa corrida contra o cronómetro, ou simplesmente anda a passear e a experimentar a sorte.

Jantávamos os crepes enrolados com carne de dromedário – é mais correcto dizermos assim, porque não se trata de camelos… – e as cenouras maravilhosas que crescem nas hortas dos dois oásis de Ouadane, quando começámos a falar com Zaïda, a impagável dona do Auberge Vasque, sobre as melhores possibilidades de experimentarmos o Peugeot 3008 nas dunas que circundam a cidade. Explicámos que o nosso carro só tem tracção dianteira e demos como exemplo o facto de não termos conseguido subir o atalho que permite alcançar o planalto onde se situa a cidade, contornando o oásis junto às ruínas da antiga cidade medieval. Na nossa visita anterior, foi aí que estreámos a cinta de reboque, pois nem mesmo baixando significativamente a pressão dos pneus conseguimos que o carro ganhasse motricidade para sairmos dali pelos nossos próprios meios.

Zaïda lembrava-se bem desse episódio, tanto mais que foi ela quem nos encheu os pneus, para retomarmos a pista até Chinguetti com a pressão adequada, fundamental para protegermos os pneus das pedras afiadas do caminho. E não hesitou em afirmar que conseguíamos andar bastante em areia, sobretudo se partíssemos cedo, ainda antes do sol começar a aquecer e a levar as dunas a escaldar.

Mas, não fosse o diabo tecê-las, Zaïda disponibilizou-se para nos acompanhar, não só fazendo de guia, como também para escoltar o Peugeot 3008, e resgatá-lo sempre que necessário.

Assim, de manhã, bem cedo, ainda pela “fresquinha”, com o termómetro a marcar apenas 30 graus centígrados, partimos atrás do Nissan Patrol GR todo preparado desta mauritana que vale por muitos homens, de tão enérgica, decidida, desenvolta e firme. Com ela, não há dúvidas sobre quem manda! E manda bem. Acompanhá-la no deserto, é em si uma experiência positiva. E forte! Conhece cada recanto, olha para a areia e sabe exactamente onde devemos pisar, ou que passagens temos de evitar. Ainda assim, logo à primeira paragem para uma sessão de fotografias, ficámos atascados. E na segunda também. E não houve terceira, mas especialmente porque a última foi tão prolongada que a nossa companheira Paula Gonçalves, encarregue de conduzir, enquanto registámos tudo com a máquina fotográfica, saiu dali quase catedrática na condução em areia. E logo da maneira mais difícil, sem dispor de tracção integral, muito menos de redutoras.

Este segundo atascanço implicou usarmos continuamente as pranchas que Zaïda transportava, no seu GR, totalmente preparado para enfrentar as condições mais extremas em todo terreno. Foi o castigo por termos parado exactamente numa dessas zonas de areia mais mole, onde nem a nossa guia se aproximou, imobilizando o seu Nissan à distância e preferindo carregar as pesadas pranchas, que nos permitiram assegurar um corredor de piso firme para o Peugeot ir avançando sem que as rodas se voltassem a enterrar.

Lugar classificado como “Património da Humanidade”

Aprendida a lição, seguiram-se horas deliciosas, que resultaram em belas imagens, como aquelas que agora mostramos nesta crónica. E depois, merecemos um bom pequeno-almoço, que embora tardio, estava marcado que nos seria servido ao regressarmos a Ouadane. Triunfantemente. O que já não repetimos foi a visita à velha cidadela medieval, que vista à distância é imperceptível, pois o amontado de pedras destas ruínas funde-se de tal forma harmoniosa com a paisagem envolvente, que só mesmo junto às muralhas percebemos do que se trata.

Talvez não haja um visitante por dia, em média, mas o certo é que Ouadane e as suas ruínas têm uma importância histórica bastante relevante. Ao ponto de terem merecido que a Unesco distinguisse a antiga cidade como Património da Humanidade. Este é um dos quatro lugares com esta classificação na Mauritânia. E o mais remoto de todos. Daí ser um privilégio ter oportunidade de conhecer esta antiga cidade, onde também passaram os portugueses, que, como se fosse tradição inquebrável, embora tivessem permanecido pouco tempo, deixaram descendência…

Talvez por isso, o Governo de Portugal se tenha sentido “moralmente obrigado” a custear, há alguns anos, a recuperação desta cidadela, que ao longo de séculos foi por inúmeras vezes saqueada e destruída por berberes marroquinos. Os mesmos que puseram os pioneiros portugueses em debandada. Com esta visita, e de novo refrescados por mais um duche de água “corrente” – para não dizermos quase quente, de tão aquecida nos canos – achámos que era o momento de dizer adeus a Ouadane e à nossa amiga Zaïda. E pusémo-nos em debandada, para mais uma incursão no deserto, agora sozinhos, como quase sempre andámos nesta expedição…

Texto e fotos: Alexandre Correia

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