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Saif, o guardião de uma biblioteca que se mantém em Chinguetti desde 1699

VISITA AO “PAÍS DE CHINGUETTI”

In Expedições by Alexandre CorreiaLeave a Comment

Os mais cultos, dizem, com os olhos a brilhar de orgulho, que Chinguetti era, há alguns séculos, um dos grandes centros do islamismo e o maior polo cultural de todo o Sahara. A importância era tal que usualmente se chamava a toda a região, imensa, o “País de Chinguetti”. Isolada num planalto rodeado por cordões de dunas a perder de vista, chega-se à cidade por uma pista de terra e areia, que sobe desde o vale de Atar. Foi a segunda escala na Mauritânia para a Expedição Todo Terreno Peugeot 3008 Lisboa-Dakar-Bissau.

Quem diria que no coração do Sahara, no interior do que é hoje a Mauritânia, em tempos que já lá vão, havia uma cidade que era um importante centro cultural, onde funcionava uma universidade e inúmeras bibliotecas? Falamos de Chinguetti, que já não tem mais do que escola básica, mas onde ainda podemos conhecer o que sobra de algumas dessas bibliotecas, com livros manuscritos há largos séculos. E que livros: compêndios de matemática, de física, de medicina, até de astronomia, mas também coletânias de poesia e muitos, mesmo muitos textos corânicos. Alguns destes livros, estima-se que tenham sete séculos, remontando ao início do período mais rico desta cidade, que agora conta apenas com cerca de dez por cento da população que contava há apenas 50 anos, ou seja, talvez não muito mais de dois milhares de pessoas.

Seja como for, este lugar é mesmo um dos mais recomendados para uma visita, a todos os que quiserem experimentar a sensação de penetrar no coração do Sahara e contemplar dunas que parecem infindáveis, acrescentando a isso um contacto estreito com a história e cultura; não só deste país, a que os romanos, quando estenderam o seu império ao Sahara, chamaram Mauritânia, mas que o orgulho dos nativos mais cultos, como os guardiões das poucas bibliotecas seculares que ainda subsistem, insiste em sublinhar que no apogeu da cidade, todos estes vastos territórios do deserto eram simplesmente conhecidos por “País de Chinguetti”.

São somente quatro as bibliotecas privadas que sobreviveram à erosão dos tempos, ao desinteresse de uns, ao interesse de outros, que foram comprando esse património, levando-o para outras paragens, para colecções privadas que, por isso mesmo, são inacessíveis. Nos últimos anos, parte foi recuperada, para a criação de um museu em Nouakchott, que permita valorizar e perpetuar esses livros e até o seu conhecimento, fundamental para entendermos a evolução dos tempos, desde os pensamentos à ciência e à religião. Mas, na capital, o acervo disponível ainda é apenas uma parte mínima do que se sabia existir em Chinguetti há algumas décadas. De acordo com as informações que conseguimos apurar, não estão mais de dois milhares de livros catalogados no museu, onde a digitalização está a ser a via adoptada para que possam ser livremente consultados, sem pôr em risco o manuseamento de obras tão frágeis, pela sua extrema antiguidade e má conservação, em muitos casos.

Mas, há ainda em Chinguetti quatro bibliotecas particulares que reúnem um acervo suficientemente rico e interessante para que mereçam uma visita. E essas visitas têm um impacto duplo na vida da cidade. Por um lado, contribuem para que se mantenham estas colecções, sobretudo pelas doações dos que aqui vão, mesmo que normalmente se tratem de valores reduzidos. Por outro, para grande parte dos que chegam a Chinguetti, “ir ver os livros antigos” é em si, um dos principais factores de atracção. Além disso e de contemplar as dunas em redor, há muito pouco mais para ver e para fazer neste lugar perdido nos confins do deserto, em pleno planalto do Adrar.

Chinguetti foi distinguida pela Unesco em 1996 como Património da Humanidade, em reconhecimento à importância histórica e cultural desta cidade, que ainda preserva algumas das suas raízes medievais. Estas antigas bibliotecas são apenas uma parte do património que despertou o interesse da Unesco, mas sem isso, talvez hoje já não sobrasse nada mais do que a memória. E essa apaga-se com o tempo.

A menos que haja sempre alguém empenhado em, além de guardar estes tesouros, abri-los para os partilhar com os forasteiros e, sobretudo, contar as histórias que, independentemente de escritas nos livros, têm passado de boca em boca, geração após geração. São homens como Saif, que revisitámos um dia depois de termos chegado aqui, para uma visita guiada à biblioteca que a sua família mantém na cidade, desde 1699!É uma das quatro que subsistem, repetimos, de um conjunto que há alguns anos ainda se alargava a duas dezenas.

História e estórias

O nosso anfitrião para esta visita matinal era professor e tem um jeito teatral muito especial de contar a história de Chinguetti e do seu rico passado. Já o faz há longos anos, talvez pelo menos uns vinte. Já o conhecemos há muitos. Aprendeu com o pai e com um tio, de quem herdou a responsabilidade de guardar a chave da biblioteca familiar, abrigada por uma fundação que leva o nome do clã: Al Ahmad Mahmoud, cujo acervo conta com cerca de 400 álbuns manuscritos e para cima de 1400 documentos da própria família.

Saif Al-Islam fala-nos com entusiasmo e orgulho, contando todo esse passado que o empenho da sua família tem assegurado que continua bem desperto. Não deixa de ser curioso que esta memória se mantenha viva não pela consulta dos livros e do seu conhecimento, mas pela prática da mais tradicional de todas as formas de divulgação cultural: a oralidade. Saif conta mesmo histórias. Que já ouvi contar a quem também as conheceu assim e por aí adiante. E acreditamos que neste caso o ditado “quem conta um conto, acrescenta um ponto”, seja totalmente aplicável.

Por exemplo, é graças às histórias tantas vezes repetidas por Saif, pelos seus antecessores e pelos outros bibliotecários como ele, que se difundem ideias que todos nós difundimos mas que, se fizermos uma pesquisa mais apurar e séria, como procurámos fazer, acabamos por concluir que não têm sustentação séria. A “padeira de Aljubarrota” de Chinguetti é a importância da cidade no contexto dos lugares sagrados do islão. A cidade é apresentada como o sétimo da lista, mas a verdade é que não encontramos nada que o sustente, senão em textos relativamente recentes, alimentados precisamente por estas histórias contadas de boca em boca.

Cavar depois do “banho de cultura”

Este banho de cultura entreteve-nos durante uma boa hora, mal medida, pois não chegámos a olhar para o relógio, mas pareceu-nos ter sido uma sessão perfeitamente definida, sem lugar ao improviso, em que Saif nos mostrou exemplares de livros com diversos níveis de antiguidade, versando uma grande diversidade de temas, sem nos ler em concreto nenhuma passagem, pois citava-as de cor, sem olhar as páginas, que folheava cuidadosamente, com a mão protegida por uma luva que já foi branca, mas que o pó da areia foi amarelecendo.

À porta da casa da Fundação Al Ahamd Mahmoud esperavam, pacientemente, meia dúzia de mulheres. Eram as vendedoras de artesanato, supostamente local, se aceitarmos como “local” o facto de o podermos comprar ali, porque de contrário, era igual ao que podemos encontrar em diversos outros lugares e não apenas na Mauritânia. Que isto do artesanato e da originalidade também tem muito que falar, sobretudo quando a maioria dos potenciais clientes é pouco exigente, pouco conhecedor e, sobretudo, pouco gastador. Nestes casos, não há milagres e a única hipótese de fazer negócio é “importar” pelas baratas de produção industrial, mesmo que manufacturada, não interessa onde. Depois, a sujidade confere às peças um ar que leva a maioria a pensar tratar-se de coisas antigas, numa frequente confusão com a palavra “velhas”.

Compramos apenas um par de “chèches”, que oferecemos aos nossos companheiros nesta fase da viagem, Pedro Nogueira Simões e Luís Jerónimo, e que, como também acontece quase sempre com essas peças de artesanato cheias de sujidade, tiveram um “prazo de validade” muito curto. Apenas alguns minutos. Porque uns minutos depois de terem partido do sector mais antigo de Chinguetti, parámos para uma sessão de fotos junto ao poço no canto do “oued” que divide esta parte da zona mais recente da cidade. E assim que arrancamos, nem nos lembrámos que o piso era areia, nem sequer pensámos em selecionar o “Grip Control” para a posição respectiva. E o resultado foi uma vergonha, que rapidamente correu toda a cidade…

Percorremos uns metros, poucos, e a frente do Peugeot 3008 como que foi engolida pela areia. Era a oportunidade mais inconveniente para estrearmos a pá que tínhamos comprado em Guelmim, em Marrocos, mesmo antes de entrarmos nos territórios do Sahara. E dizemos inconveniente porque ficámos atascados no ponto mais frequentado de Chinguetti, precisamente a passagem entre a cidade nova e a velha.

Rapidamente chegaram mãos voluntariosas para ajudar e num instante até a frota de táxis locais estava estacionada à nossa volta, para admirar o espectáculo de uns estrangeiros enterrados na areia mesmo à beira da pista, antes sequer de se aventurarem em direcção às majestosas dunas por onde passaram várias edições do Rali Dakar e do África Race.

Neste último, a visita mais recente foi igual à nossa experiência, pois o sector selectivo arrancava dali e boa parte dos veículos ficaram enterrados na areia, pouco mais adiante, despertando as maiores risadas da população. Como agora aconteceu. Com discrição, porque os espectadores não resistiram a assistir, mas foram discretos a expressar o quanto os divertimos. E pagaram o espectáculo empurrando e ajudando a cavar a areia.

Esclarecê-los que o Peugeot 3008 não dispõe de tracção integral soava a desculpa esfarrapada, pelo que aceitámos as risadas e os conselhos sobre “como conduzir em areia” e reservámos a desforra para um mês mais tarde. Essa crónica, ainda a vamos escrever, mas os mais curiosos podem desde já adivinhar um pouco do que iremos contar vendo o vídeo que já disponibilizámos aqui, no sítio da revista Todo Terreno, há algum tempo.

Foi a pensar nesta desforra que voltámos a atravessar o “oued” de Chinguetti até ao Auberge La Guëla, onde Sylvette, a nossa incansável anfitriã, já nos aguardava com um café e algumas garrafas de água bem frescas, para não partirmos “a seco” até à vizinha cidade de Ouadane, a cerca de centena e meia de quilómetros, percorridos sempre numa pista dura, de terra e areia!

Texto e fotos: Alexandre Correia

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