Hoje, a meio da tarde, não muito depois de terminar de escrever estas linhas, vou ao Estoril para me despedir de uma velha amiga. A Maria Teresa de Queiroz Cupertino de Miranda, ou simplesmente a Teresa Cupertino. O seu caminho chegou ao fim na madrugada de ontem, 78 anos depois da partida. Viveu uma longa maratona, quase sempre com uma incrível intensidade. Foi das pessoas mais divertidas e generosas que alguma vez conheci!…
Faltam três dias para terminar 1991 e estou em Paris. Acompanho as operações de verificações técnicas e documentais do Rali Paris-Cidade do Cabo, a edição mais longa alguma vez realizada no famoso “Dakar”. Há três jipes portugueses, além da Yamaha de Pedro Amado; são o UMM Alter Turbo de Francisco Sande e Castro e de Cristóvão Leitão, o Nissan Patrol Longo de José Megre, António Malvar e Domingos Teixeira e ainda o Nissan Patrol GR de Teresa Cupertino, Berta Assunção e “Manecas” Caetano. Nesta noite, junto-me ao grupo que participa com os dois Nissan para irmos jantar no centro de Paris, trocando um provável jantar solitário por uma noite cheia de alegria, que nunca mais esqueci.
Já conhecia a Teresa de algumas provas do Clube Aventura em que ela tinha participado. Mas, na verdade, apenas sabia quem ela era. E o pouco que tínhamos falado era meramente circunstancial. Depois deste jantar, comecei de facto a conhecer a Teresa, que fui reencontrando mais à frente, já em África, no decurso da prova, onde ela se estreou chegando ao fim classificada…
Entusiasmada pelo resultado positivo no “Paris-Cidade do Cabo”, a Teresa voltou à acção ainda em 1992 e com o mesmo Nissan, participando no Rali Paris-Moscovo-Pequim, igualmente uma prova épica, que tal como a outra, não voltaria a repetir-se. E continuámos a encontrar-nos nas corridas. Estas provas tão longínquas, pareciam ser mais convidativas para o convívio entre pilotos e jornalistas. E viria aí a nasceu uma boa amizade com a Teresa.
Apaixonada pelas grandes viagens, sobretudo fora da estrada e por lugares mais inóspitos, a Teresa não resistiu ao apelo de alguns dos programas da revista Todo Terreno. E viajámos juntos algumas vezes por vários continentes, consolidando esse conhecimento mútuo e a amizade que tinha despontado.
Nessas viagens, sempre de algumas semanas, percebi o quanto a Teresa era divertida. Mas também de uma genuína generosidade. Quando nos vemos rodeados por alguém assim, é fácil gostarmos. E fiquei a admirá-la cada vez mais por isso. Pelo que deixava bem à vista e até pelo que guardava para si. Não precisei de esperar que morresse para lhe dizer que era uma grande mulher. Disse-o já há longos anos, antes até de ter tomado a decisão de dar uma orientação diferente À sua vida, terminando com a exposição pública, para se entregar a si própria. A partir daí, ainda falámos um par de vezes, muito brevemente. E depois, respeitei esse recolhimento. Mas a amizade nunca se perdeu. Também um dia nos voltaremos a encontrar algures, noutra vida. Até lá, guardo para mim as melhores memórias desta mulher admirável, uma aventureira nata, mais corajosa que muitos “galifões”. À família enlutada e muito em particular à Madalena, que sempre testemunhou esta amizade, aqui ficam os meus sentidos pêsames!
Texto: Alexandre Correia Fotos: Luís Dias